Na psicanálise clínica, psicose tem sido tradicionalmente entendida como alucinações e delírios – uma ruptura com a realidade. Mas Jacques Lacan, relendo Freud, propôs algo mais sutil e, acredito, mais relevante para o ambiente de trabalho e a cultura atuais: a psicose ordinária.
Diferentemente da psicose floridiana, a psicose ordinária não envolve ouvir vozes ou teorias da conspiração paranoicas. Em vez disso, é uma condição estrutural definida pela rejeição (Verwerfung) — a rejeição de uma âncora simbólica fundamental que Lacan chamou de Nome-do-Pai. Essa âncora normalmente nos permite navegar pelo desejo, pela lei e pelo significado. Quando ela é rejeitada, o sujeito fica sem um ponto de referência estabilizador.
Como isso se manifesta no dia a dia?
- Uma sensação persistente de que as interações sociais são roteirizadas ou irreais.
- Dependência compulsiva de fórmulas fixas, jargões ou palavras-chave para lidar com a ambiguidade.
- Incapacidade de dizer “não” ou articular uma discordância genuína.
- Convicções repentinas e inexplicáveis que ignoram o raciocínio simbólico (“Eu simplesmente sei que isso está certo”).
Crucialmente, a psicose comum não é uma doença – é uma estrutura de subjetividade. Muitos profissionais de alto desempenho operam dentro dela. O perigo não é a loucura, mas uma gradual erosão da confiança simbólica: a linguagem deixa de mediar entre o eu e o outro; torna-se um ciclo fechado de declarações performativas.
Lacan ensinou que a psicose não é a ausência da realidade, mas a presença do Real – aquele núcleo insimbolizável que irrompe quando nossos andaimes simbólicos falham. Na psicose comum, esse Real aparece não como visões aterrorizantes, mas como momentos de certeza absoluta, desconexão social ou literalidade bizarra.
Compreender a psicose comum nos permite fazer perguntas mais pertinentes sobre nossos locais de trabalho, nossas vidas digitais e nossos padrões de fala. Estamos falando — ou apenas recitando?